"Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos nos
aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas
desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de
vida perdido cada vez que comia uma gema. Assim começa a crônica Ovo, em
que o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo demonstra sua indignação
por ter sido afastado dessa iguaria durante um bom pedaço da vida
restrição que não foi exatamente fácil para ele. Sei não, mas me devem
algum tipo de indenização [...] O fato é que quero ser ressarcido de
todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos
mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do
céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não
morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta?
Bem, a má notícia é que ninguém trará os fios de ovos de volta. E,
claro, não há quem pense em propor uma indenização aos apreciadores
desse alimento. A boa nova é que, nos últimos anos, o ovo realmente vem
sendo objeto de uma reabilitação poucas vezes vista na história da
Medicina. Até mesmo os cardiologistas mais radicais, aqueles que
demonizaram os ovos como os maiores vilões da saúde do coração, começam a
rever suas posições. A virada se deve a uma série de estudos
científicos, muitos deles com dezenas de milhares de participantes, que
mostram de maneira muito contundente que a sua condenação foi uma
espécie de julgamento sumário. Se fosse uma questão criminal, seria um
caso clássico de erro jurídico. Analisadas as evidências, veio a público
um novo veredicto: o ovo está absolvido. E as provas, diga-se, não são
poucas.
Uma das demonstrações mais recentes é assinada pela Universidade de
Minnesota, nos Estados Unidos. Em artigo publicado em janeiro deste ano,
resultado de uma pesquisa envolvendo 9.734 pessoas de 25 a 74 anos
acompanhadas durante duas décadas, os pesquisadores demonstraram não
haver relação entre o consumo regular de ovos e o aumento da incidência
de doenças cardiovasculares, como infarto e derrame. Não houve diferença
entre aqueles que comiam um ovo ou mais por dia em comparação com quem
não comia nenhum, disse à SAÚDE! o cardiologista Adnan Qureshi, líder da
investigação. Em apenas um grupo específico, o dos diabéticos,
encontramos dados que mostram que o consumo maior de ovos pode estar
ligado ao aumento da ameaça de doenças cardíacas, mas isso nem sequer
está totalmente claro. A nutricionista Raquel Dias, coordenadora do
Laboratório de Ciência e Arte dos Alimentos da PUC do Rio Grande do Sul,
comenta: A cultura de que o ovo faz mal se espalhou de tal modo que as
pessoas, na dúvida, preferem comer pão e outros carboidratos, que, em
excesso, também trazem risco cardiovascular.
A idéia de que o ovo merecia sair do
limbo veio à tona no início na década
de 1990, quando dezenas de cientistas
apontaram para deficiências de pesquisas
mais antigas, realizadas a partir dos
anos 1960, que associavam o consumo
do alimento ao colesterol nas alturas e
este aos problemas do coração. O divisor
de águas foi uma grande investigação
publicada em 1999, na prestigiada
revista da Associação Médica Americana,
e assinada por um time de especialistas
da Universidade Harvard. Em
resumo, eles cruzaram informações sobre
a dieta de 37 851 homens e 80 082
mulheres com a ocorrência de doenças
cardiovasculares durante um período
de até 14 anos. A conclusão: O consumo
de mais de um ovo por dia não causa
impacto significativo sobre o risco
de doenças coronarianas e derrame em
homens e mulheres saudáveis.